Desde a grande crise
do subprime americano em 2008, já transcorreram mais de 11 anos de relativa
estabilidade na economia mundial. Olhando para o histórico de crises
financeiras e a frequência em que elas ocorreram nas últimas décadas,
constata-se que já estamos no lucro.
As bolsas americanas
têm atingido topos históricos, diante dos juros baixos por esse longo período.
Mesmo o FED (Banco Central americano) tendo subido os juros até os atuais
2,25%, o incentivo para comprar riscos diante do baixo retorno em títulos, tem
provocado essa excessiva alta nos ativos.
O problema das
dívidas soberanas não foi equacionado, especialmente a americana, contraída
justamente para combater aquela crise. O montante dessa dívida já ultrapassa os
22 trilhões de dólares. Outra dívida que preocupa é aquela vinculada ao
financiamento estudantil, ultrapassando hoje o montante de R$ 1,59 trilhão de
dólares, um recorde histórico. Os recém-formados ingressam no mercado de
trabalho, afundados em dívidas, o que prejudica e adia investimentos como a
compra da casa própria, com reflexos no crescimento da economia.
Outra frente de
problemas é a relação comercial dos EUA com a China. A guerra comercial travada
ainda não teve um desfecho. Recentemente, o Donald Trump, presidente americano,
ameaçou taxar as exportações chinesas em 25%, para forçar o governo chinês a um
acordo. Possíveis retaliações da China ocorrerão, caso isso se concretize, com
efeitos sobre o comércio e o crescimento mundial. O impacto sobre mercados
emergentes exportadores de commodities, especialmente o Brasil, que exporta
muito para a China, é óbvio.
Já não bastasse o
cenário internacional preocupante, que nos últimos anos tem dado uma trégua,
sem nos aproveitarmos disso, a situação interna brasileira inspira mais
cuidados ainda. A pauta única chamada reforma da previdência não será aprovada
como planejado. Muitas concessões serão feitas e a economia inicialmente
superior a R$ 1 trilhão em 10 anos, pode ficar somente em torno de R$ 500 a 600
Bilhões, se for aprovada.
O governo parece ver
inimigo nos moinhos de vento, como na história de Dom Quixote. Discurso
ideológico e desfocado da realidade toma a agenda, ao invés de problemas reais
a serem combatidos. Luta interna entre militares e a família Bolsonaro causam
baixas na equipe, como a queda do Bebbiano e do Ministro da Educação. O próprio PSL, partido do presidente, já não
tem alinhamento com o governo, mesmo na reforma da previdência. Começo a
duvidar até que esse governo tenha capacidade de aprovar qualquer reforma. Há
indícios de enfraquecimento do Moro dentro do governo, com possível saída
antecipada. O seu projeto anticorrupção deve naufragar no Congresso.
Não precisamos nem
de uma crise externa para nos atingir. Nós já temos a nossa própria tempestade.
Em um cenário sem reforma da previdência, probabilidade cada vez maior, o
Ibovespa a 95 mil pontos estará bem caro. Correções fortes podem levar o índice
a números abaixo de 60 mil. Não é previsão. É a constatação de que o índice nos
níveis atuais já embute expectativas que não devem ser confirmadas. Então o
mercado devolve, simples assim.
O crescimento para
2019, que no final do ano passado chegou a cerca de 2,50%, foi remarcado para
1,5% no último boletim Focus do Banco Central. A expectativa está sendo trazida
para a dura realidade. Esse número, já revisado para baixo várias vezes, pode
chegar ao final do ano, próximo do zero ou até negativo. O mercado deve
acompanhar esse cenário, mesmo que nada de muito negativo aconteça.
A quantidade de
investidores pessoa física na B3, a bolsa brasileira, tem crescido nos últimos
anos e já está próximo do primeiro milhão de participantes. Muitos ingressaram
incentivados pela alta recente do mercado e jamais passaram por uma crise. A
maioria não conhece nada do mercado financeiro e se posicionaram em ativos que
já subiram muito desde o fundo em 2015. Estão buscando melhor rentabilidade,
mas talvez tenham entrado no momento errado. Isso é tanto verdade que os
estrangeiros não estão acompanhando esse movimento. Estão se retirando desde
final do ano passado. A alta do mercado brasileiro é provocada por investidores
locais, muitos deles iniciantes e empolgados com a alta recente. Isso pode ser
uma fonte de problemas.
Para quem investe em
renda variável como eu, vendo um cenário em deterioração constante e com nuvens
negras no horizonte, entende como altamente recomendável a desmontagem de
posições de risco até o limite do possível. A ordem é diminuir a exposição a ativos
de risco, como ações, ao mínimo. O ideal no momento é alocar no máximo 15 a 20%
em ações. O resto em renda fixa, como tesouro direto, fundos menos arriscados,
etc, e um pequena parcela em seguros, como dólar, fundo cambial ou outra
alocação que funcione como hedge da carteira. Opções de venda com vencimentos
mais longos é uma alternativa, sabendo que esse é um seguro caro, pois elas em
algum momento vencerão e virarão pó, se o pior cenário demorar a se
concretizar.
Se estiver certo,
bons ativos estarão bem mais baratos para compor uma nova carteira, após uma
definição clara dos acontecimentos. Se estiver errado, o retorno sobre o
patrimônio será o da renda fixa, sobre a maior parte do capital, bem modesto
para os níveis atuais, mas a primeira lição dos mestres é: não perca dinheiro,
depois pensamos em ganhos. Se evitarmos os erros, os acertos virão em seguida.
Essa é uma das melhores lições do bilionário Warren Buffett.

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